As perdas fazem parte da rotina de todo profissional de alimentos, independente do ramo, setor ou empresa. Será que nós estamos sabemos identificar e propor ações que reduzam os desperdícios?
Apesar de ser um assunto muito claro, ainda nos confundimos um pouco sobre o que a palavra “perda” significa dentro das fábricas. Isso não nos impede de fazer um bom trabalho na prevenção de algumas perdas, mas pode nos fazer deixar outras perdas passarem batido.
Conhecer mais aspectos desse problema recorrente das indústrias pode nos ajudar combate-lo em suas mais variadas formas, tornado assim a indústria um ambiente mais sustentável.
Como podemos resolver de uma vez por todas as perdas?
Não podemos!
As indústrias têm evoluído bastante ao longo dos últimos anos, tanto em tecnologia como em gestão, e têm se tornado cada vez mais eficientes no aproveitamento dos recursos.
Isso é inegável. E ainda assim, com todo esse progresso, as perdas ainda fazem parte do dia-a-dia das fábricas.
Nesta altura, precisamos aceitar que: Não há como eliminar as perdas de um processo por completo.
Você já deve ter ouvido falar do conceito DEFEITO ZERO (Phillip Crosby), que prega uma gestão de qualidade focada em evitar falhas. Apesar de ser uma filosofia importante para a Gestão de qualidade moderna, ao pé da letra ela se torna apenas utópica.
O sistema de gestão mais próximo que temos disso hoje é o Seis Sigma, com 99,99976% de assertividade. E mesmo assim, vão ocorrer 30 falhas a cada milhão produzido.
Não temos meios de garantir que falhas não ocorram.
Isso não quer dizer que não podemos atuar para diminuí-las.

As perdas como conhecemos.
Eu gosto de classificar as perdas em dois tipos:
1 – As significativas: São aquelas decorrentes de falhas críticas, operacionais ou de qualidade. Geralmente tem um impacto financeiro grande e imediato, e;
2 – As “invisíveis”: São aquelas que ocorrem rotineiramente, mas que passam desapercebidas por não impactar na qualidade ou por ter um custo insignificante frente ao volume de produção.
As perdas significativas são fáceis de identificar. Por exemplo, uma falha de CIP, que dê passagem de soda ou ácido e contamine um tanque com 100 mil litros de produto.
Essa é uma perda muito grande! Sem dúvida todo mundo vai saber, desde o supervisor até o presidente da empresa.
Então, ou os controles da indústria já contemplam estas falhas para evitar este tipo de perda, ou vão começar a contemplar assim que a falha ocorrer a primeira vez.
As perdas invisíveis.
Já com as perdas invisíveis é um pouco diferente. Elas não têm peso no resultado. Os valores são baixos, então por vezes nem são notadas.
Bons exemplos são os sobrepesos nos pacotes, os pedaços de produto que caem no chão e vazamentos em tubulações e bombas. Enfim, aqueles tipos de falhas que justamente por serem pequenas, são recorrentes.
Isso se considerarmos apenas as perdas materiais. Porque existem perdas ainda mais “invisíveis”, de recursos que as vezes esquecemos que usamos no nosso trabalho.
O tempo é o principal desses recursos. Desperdícios de tempo são muito comuns nas empresas e na maioria das vezes não são notados.
Isso ocorre porque nossos olhos foram treinados para olhar para os produtos e equipamentos.
Utilidades industriais também são recursos negligenciados na hora de contabilizar perdas pequenas.
Como perdas pequenas, elas têm impactos de custo pequeno, muitas vezes já contemplados no orçamento de forma indireta.
Mas quando se coloca na ponta do lápis, essas pequenas perdas ao longo de um ano podem ter um valor muito maior inclusive que as perdas significativas.

A questão da magnitude.
Desperdícios não são exclusivos de empresas pequenas, sem certificações e com baixo orçamento. Pelo contrário, fazem parte da realidade de todas as empresas, desde poderosas multinacionais até a padaria do seu Zé.
Eu diria que, inclusive, as perdas tendem a ser mais toleradas nas grandes empresas, por mais incrível que isso possa parecer.
Relato verídico: Todas as indústrias que visitei até hoje tem alguma perda tão rotineira que os próprios colaboradores já se acostumaram com ela (Empresas com E maiúsculo). Quando questionadas as pessoas só respondem: “É normal do processo!”
Se você já teve contato com alguma indústria, sabe do que eu estou falando.
O mais interessante é que quanto maior o volume de produção, maior o tamanho da perda aceitável. Experimente chegar na padaria e rasgar um saco de farinha de 10kg (Certifique-se de que seu Zé não está com uma faca em mãos).

Agora chegue no armazém da fábrica da farinha que seu Zé compra e veja quantos sacos de 50kg estão avariados por causa dos garfos da empilhadeira por dia. Daria pra abrir uma padaria por ano. E todos ali continuam indiferentes.
Reduzindo as perdas.
Perdas não podem ser eliminadas, mas podem ser reduzidas a níveis aceitáveis. Isso vale tanto para as grandes quanto para as pequenas.
A grande questão é que as perdas impactantes são bem menos aceitas que as invisíveis.
Não dá pra bancar o ditador e reduzir as perdas pequenas logo a níveis de aceitação próximo de zero. Isso não funciona, seja por limitações de investimento, de capacidade ou de processo.
Mas dá pra ir trabalhando aos poucos. Podemos até eliminar algumas perdas do processo. Mas logo vão aparecer outras, talvez menores. O trabalho nunca vai acabar.
As perdas invisíveis devem ser vistas como oportunidades. Elas podem ser a chance que nós precisamos para mostrar o nosso trabalho.
Portanto, saber que essas perdas existem é uma grande vantagem. A partir daí, cabe a nós um olhar mais atento para a fábrica.
Assim poderemos identificar essas perdas e desenvolver os estudos que mostrem o verdadeiro impacto desses pequenos desperdícios.
Você já conseguiu identificar essas oportunidades na sua fábrica?